Rosso Pomodoro Podcast
 
O Bardo Inglês # 3 - Cimbelino, Rei da Bretanha

 

Se não me engano, Cimbelino é uma peça simbólica sobre a civilização, as relações entre o homem e a natureza, a cultura.

Vejamos: a história é a de um rei, ou seja, quem tem a responsabilidade e o poder de organizar a sociedade dos homens, quem herdou ou representa entre os homens a autoridade de deus. Ele é a consciência. E ele tem o dever de assegurar a descendência, de continuar o mundo. Carrega o tempo sobre os ombros. Continua uma linhagem: é o tronco de uma árvore que continua a memória de todos os mortos e donde sairão novos ramos até chegar ao céu. O símbolo é natural. Da terra que tem água se alimenta e entre o fogo das paixões vai crescendo para cima, para o ar, para a paz. A árvore é o Homem, obra prima da vida, árvore também, como no Non de Oliveira.

E, se não me engano, a peça começa com um erro, ou um desgosto: uma cegueira, uma inconsciência, uma mentira. O fogo de um amor por uma rainha que não tinha amor leva o rei a impedir um enxerto em sua árvore que seu saber, sua cultura, tinha preparado, a proibir o amor de sua filha Imogénia por um puro, Póstumo Leonato, por si educado como um filho. Isto numa côrte doente, ou seja, numa sociedade esquecida do seu natural, mergulhada na mentira e corrompida pelo dinheiro e pelos jogos de poder. Essa doença, privara já o rei de seus dois filhos varões: outra inconsciência, outra cegueira, levara o rei a ouvir uma mentira e a ser injusto, confundindo a lealdade de Belário com a traição. E levando assim o justo a corrigi-lo, tornando-se em regente, ou num rei no exílio, e guardando os dois rebentos longe da peçonha, à espera do tempo, numa floresta de que se tornou jardineiro. Nos dois casos o rei deixou errar o seu saber, nos dois casos o rei esqueceu que fazer viver seu tronco era a sua responsabilidade, e que fazer viver o tronco é uma arte, é educar a natureza, é o mais nobre ofício de transformar a vida em civilização. Depois a peça é a história de um violentíssimo processo para a própria reeducação do rei, o seu arrependimento. É a história de uma luta contra a morte e o caos da inconsciência, que é movida por um fogo: a generosidade, verdadeira natureza humana, capaz de todos os excessos, de toda a grandeza. Imogénia e Póstumo, Pisânio, Guidério e Arvirago, Belário, Caio Lúcio e até, modestamente, Cornélio, todos têm amor, e esse fogo e Deus ou o Tempo, seu instrumento natural, conseguem levar o Homem até ao sonho da paz, até à final harmonia do rei com a sua responsabilidade, à reconciliação com a simplicidade original, ao perfeito equilíbrio entre a vontade do Homem e as forças naturais, a civilização.

Mas sonho. Tão inverosímil como toda a peça. Tão inacreditavelmente complexa e teatral é a intriga, onde até aparece um "jack in the box", o demónio (italiano) a seduzir a virtude, e onde até há visões de deuses e fantasmas e onde, por milagre, numa guerra três homens se transformam em anjos ou gigantes para tornar cobardes em valentes e derrotar exércitos e o remorso tira a força aos homens maus, tão imaginária é esta Britânia ou aquela Itália de todos os contos, que uma enorme amargura a atravessa. Tudo isto não existe, talvez ou com certeza. É teatro. Há muitas guerras mas não há paz assim. "Nunca houve uma guerra que primeiro que das mãos lavasse o sangue assim termine em paz". A visão do mundo que esta peça pressupõe é negra. Os homens que conhecemos são mais mesquinhos, a árvore está podre, a sociedade em que vivemos é o reino corrupto de Cimbelino. Tudo o resto é inventado. Mas tudo isto é também desejado. O homem civilizado é, pelo menos, capaz destes sonhos, a cultura que herdou e que passou a ser seiva para o seu tronco, torna-o capaz de não desistir, de desejar uma grandeza destas para o ser humano. Gosto até à morte de um teatro que a si próprio se usa para assim não desistir do Homem. Para imaginar a redenção.

E este é o sonho que uma memória fabrica. Se esta é a história de um rei que é a consciência do mundo, é nessa consciência ou em seu inconsciente, que todo este sonho se gera. Neste palácio se inventa uma Itália, neste palácio surgem grutas e montanhas, neste palácio cresce a guerra em pesadelo. Este palácio é também a nossa memória. A consciência da História. Este teatro pressupõe uma cultura. Esta peça que tem a mais complexa intriga que se pode imaginar, não está interessada em contar uma nova história, lembra o já sabido. É um enorme jogo com a memória de todas as histórias que a cultura inventou, repetiu e glosou e guardou na memória. Coisas das nossas vidas e das vidas dos outros, da tradição popular, episódios das crónicas, da Bíblia, da tragédia grega, de todas as comédias, de contos de fadas e carnavais, pedaços de música, de poesias. Entretém-se a cruzar estas coisas, a revelar ou inventar os laços que as podem unir. Desequilibradamente, sim, ao ritmo da paixão, mas, ao contrário do que se diz, numa perfeita unidade. Como nos sonhos. E parece um puzzle de citações. Citações de todos os contos tornados em teatro. Citações também de tantas personagens e histórias de todo o teatro que Shakespeare foi escrevendo para mostrar o Homem. Este teatro quer ser jogo, ou convenção, para se tornar em terreno de mitos, representar o Homem, dar-lhe sentido, ou temer e amar o seu mistério, naquele ponto em que a memória já confunde todas as épocas para só tentar conhecer, divertindo-se com os seus anacronismos.

O nosso cenário é um espaço para este jogo, esta reelaboração, é um laboratório e uma biblioteca e um ringue. Pouco importa a construção de imagens. Em cena estão actores que vão dando carne a todo um repertório de situações e personagens que nos lembram outras mil e é na nossa memória feita de cultura de tantas gerações que mil imagens se terão de construir num painel tão grande que toda a humanidade há-de estar representada. E sonhada no desejo de uma grande paz.

O nosso ofício, é este jogo civilizado. Dar sentido a uma torrente de temperamentos, pôr a memória a conviver com o desejo, encontrar maneiras de pensar a vida neste felizmente selvagem prazer de em quatro horas cada dia expormos nossa energia, nosso corpo, nossas imaginadas mas mais fortes emoções, nossa fraqueza. Tirando da cartola da nossa natureza os anjos e os monstros, os bobos, os deuses e os fantasmas que a nossa cultura gerou. Em toda a imperfeição. É este o nosso desporto. Sonhar convosco uma vida maior. A mentir se busca a verdade. Assim se morre por amor. Assim nos educamos na floresta. E queremos ser príncipes porque "o barro difere de outro barro em sua dignidade, sendo igual a poeira dos dois". "Há na natureza farinha e farelo e há desdém e graça".

Luis Miguel Cintra

Texto acima aqui.


Direct download: B_I-Cimbelino_1.mp3
Category:podcasts -- posted at: 8:17pm UTC
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